INÍCIO Brasil Garimpo no Pará - Reflexão de viagem sobre o Alto Tapajós

Garimpo no Pará – Reflexão de viagem sobre o Alto Tapajós

Em 2015, tive a oportunidade de conhecer a cidade de Barcelos (Amazonas). Já em 2016, conheci uma cidade da região aurífera do Alto Tapajós, maior concentração de garimpo no Pará. Assim, estas duas visitas ao Norte do Brasil, me levaram a rever conceitos, repensar costumes e reconhecer a pluralidade e as dificuldades do povo brasileiro.
garimpo no para

Em 2016, tive o privilégio de realizar um trabalho voluntário no estado do Pará, numa cidade chamada Jacareacanga. O nome é tão complicado quanto chegar até lá, pois são 3 dias de viagem. Sendo, um dia de viagem de avião (com várias conexões, saindo de Salvador), um dia de lancha até Itaituba, pernoite na cidade, e noutro dia, enfrentar 8h de estrada de terra, atravessando a Transamazônica (BR 230) e o Parque Nacional da Amazônia. Mas apesar do cansaço, eu faria tudo de novo!

COMPORTAMENTO

O aprendizado começa antes de aterrizarmos no Pará. No avião, conheci uma paraense bem falante que vende confecções em Belém e trabalha das 8-12h/ 16-20h. Porém, não entendi essas quatro horas de “descanso”, foi então que ela me respondeu que o comércio de Belém fecha e que sempre chove as 15h. Daí, conversa vai, conversa vem, ela perguntou meu nome e quando respondi, ela me disse a senha do meu tablet. Oxente Vaneza! Que história é essa!? Pois é, uma prévia do paraense: intrometido na vida alheia.

Da percepção de “intromissão” passo ao conceito da simplicidade e atenção com o outro. Nas cidades em que passei, percebi que os paraenses são muito atenciosos e prestativos, seja em dar informações ou resolver alguma situação. Diante de dificuldades, tem um espírito esportivo e levam quase tudo na brincadeira. As crianças são educadas e desconfiadas, mas basta um sorriso que o gelo é quebrado.

Índios mundurukus

Os indígenas adultos também são bem desconfiados. Sempre olhando pra baixo e se falam apenas o próprio idioma (neste caso, o munduruku), se sentem inferiorizados e retraídos. Não se referem ao idioma deles como idioma, e sim, como gíria. A situação fica mais leve quando mostramos real interesse em sua cultura e os tratamos com respeito. No entanto, a cultura e o meio de subsistência dos índios mundurukus tem sido afetada pelo garimpo no Pará, mas falaremos disso mais pra frente.

As famílias são grandes e as mulheres tem muitos filhos. Seria consequência dos auxílios que o governo oferece? É comum as crianças andarem nuas pelas ruas de cidades do interior e tomarem banho em qualquer igarapé, mesmo que a água seja imprópria para banho. É comum as mães oferecem, darem ou venderem seus filhos.

A beleza dos paraenses impressiona e as mulheres são bem vaidosas. Uma beleza que mistura traços de índios, negros e brancos e que chama atenção, mas em sua maioria predomina os traços indígenas. Portanto, somos fruto de uma mistura!

ALIMENTAÇÃO

Neste aspecto, tive que prestar atenção ao ciclo da natureza, visto que, tem época pro açaí, tem época pra castanha do pará (que já querem mudar o nome pra castanha do Brasil, pois se planta castanheira em vários estados). Ah, castanha no Pará não é vendida descascada.

Frutas tão comuns na maioria dos Estados, como banana e melancia, não são tão comuns por lá, além disso, custam um absurdo. Exemplo: uma melancia média em Salvador custa 5 reais, em Jacareacanga, eu tive que juntar com mais 2 amigas pra comprar uma melancia por 15 reais! Mas eles menosprezam as mangas que dão aos montes e deixam virar lama aos pés das mangueiras. Vai entender!

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vatapá com folha de jambu

Quando o rio sobe não tem como pescar, então se sobrevive com outros tipos de carne e por incrível que pareça a pecuária é forte no Pará, e tem cidades em que o peixe é mais caro que carne de boi ou frango. Quem dita a ordem do dia é a natureza!

Não posso deixar de mencionar as maravilhas da culinária amazônica: tambaqui, tucunaré, pirarucu, mapará (o salmão da amazônia), e muitos outros. Sempre me perguntam: qual a diferença no sabor entre o peixe de água doce e o de água salgada? Em meu paladar, o peixe de água doce tem carne firme e serve melhor assado. Já o de água salgada serve melhor como moqueca. E tenho que dizer que amo tacacá, vatapá e açaí (açaí de verdade, só no Norte do Brasil). Gente, não provar essas iguarias é um pecado!

 

TRANSPORTE

A locomoção na região amazônica mistura aventura e emoção, sendo que, é necessário, na maioria das vezes usar três modais para chegar ao destino. Primeiro, de Santarém a Itaituba, fiz um trajeto de 6h de lancha subindo o Rio Tapajós. Aos poucos, aparecem cidades, tais como, Fordlândia, Aveiro, Brasília Legal e Barreiras. O embarque e desembarque é rápido e prático. Ora na areia da praia, ora num píer de concreto ou madeira caindo aos pedaços.

Por fim, e para minha alegria, chego em Itaituba. E você já ouviu falar desta cidade? Nem eu! Os primeiros habitantes foram os índios mundurukus e sua extensão abrangia os distritos de Jacareacanga, Trairão e Novo Progresso. Nesta cidade operou um dos aeroportos mais movimentados do mundo na época da descoberta do ouro na região aurífera do Alto Tapajós, na década de 80. De uma currutela (locais onde os garimpeiros realizam seus comércios) tornou se a 15ª cidade mais populosa do Pará, com cerca de 99 mil habitantes, e a 13ª com maior PIB do estado. Junto com o tal progresso veio o crescimento desordenado e a violência.

Transamazônica – BR 230 – Parque Nacional da Amazônia

 

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Transamazônica beirando o Rio Tapajós

De Itaituba até Jacareacanga são 8h de viagem por 400 km da BR 230, uma estrada de terra, conhecida como Transamazônica, que atravessa o Parque Nacional da Amazônia. É uma estrada perigosa com muitas curvas e árvores enormes de um lado e do outro que frequentemente caem na estrada. E para completar, de Itaituba até Jacareacanga, só tem posto de combustível em Jacaré.

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Transamazônica atravessando o Parque Nacional da Amazônia

Daí, quando olhamos pra uma estrada assim, o que vem a mente? Animais na estrada é comum, porém não tive o prazer de ver uma onça, cobra e animais exóticos. E as história que ouvi desses encontros são hilárias (para não dizer trágicas) e cheias de emoção, inclusive um caso de um homem que encontrou um filhote de onça, colocou no pescoço e daí a mãe do filhote viu. Já sabe no que deu né?!

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alguns rios às margens da estrada

E o mais temível acontece quando chove: a estrada fica intransitável. Carros para este tipo de terreno, só as caminhonetes Hilux, mas tem gente que se arrisca de carro pequeno talvez pra aumentar a adrenalina, rsrs. Há muitas pontes de madeira sobre os igarapés, até onde eu contei, foram 16, mas eu não estava nem na metade do caminho, rsrs.

Ao longo da estrada o micro ônibus em que eu estava, fez algumas paradas nos pontos de apoio aos garimpos (alguns com restaurantes). Daí, desembarcava homens que aparentavam de 30-60 anos, todos nordestinos, principalmente do Maranhão que deixaram a seca do nordeste para tentar a vida em algum garimpo do Pará. Isso ainda existe? Existe, e muito!

GARIMPO NO PARÁ

Pois bem, vamos falar de um assunto sério, pois a atividade de garimpo é uma das mais perigosas que existe.

Um dos senhores que conheci, que aparentava uns 50 e poucos anos, fazia o trabalho de mergulhador no garimpo, que consiste basicamente em colocar uns equipamentos de mergulho e descer mais de 15 metros de profundidade no Rio com uma espécie de aspirador (maraca) que suga tudo que vem pela frente e joga para uma máquina que vai separar o que é ouro e o que não serve pra nada. Então, o mergulhador pode levar até 2h embaixo d’água. Tem mergulhador que desce vivo e sobe morto (talvez nem suba), pois morre soterrado.

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desembarque de trabalhadores pro garimpo

Preciso dizer que esta é a atividade mais perigosa dentro do garimpo no Pará? Tem gente que faz isso durante muitos e muitos anos. Este senhor que mencionei estava com um outro colega, também idoso. Os dois iam para uma cidade chamada Porto Rico. Em minha inocência pensei até que era Porto Rico, no Caribe, mas depois fui informada que era um garimpo. De Jacareacanga eles iriam de voadeira (3h em barco pequeno) para este que é um dos maiores garimpos no Pará.

Garimpo no Pará – trabalhadores

Ainda em Itaituba, um destes senhores me perguntou qual era o número da poltrona dele escrita na passagem. Ou seja, não sabia ler. Pois é, as pessoas que trabalham no garimpo, em sua maioria, são analfabetas.

Mas quanto recebe essas pessoas por este trabalho? Bom, pelo que ouvi e vi, ouro dá dinheiro, mas poucos realmente enriquecem e tem uma vida digna. Uma cozinheira no garimpo ganha entre 3-5 mil reais por mês que serão pagos em ouro ou em dinheiro. Porém, ela só pode ver a família de vez em quando a cada 6 meses, assim como outros que lá trabalham. Já um garimpeiro (trabalhador) ganha pelo que ele consegue. Já os garimpeiros (donos de garimpos) ganham muito muito dinheiro, mas alguns nem uma casa para morar tem.

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homem colocando combustível na asa do avião

Dentro do garimpo no Pará tudo é muito caro, um perfume que custa 60 reais, dentro do garimpo custa 150 reais. Parece filme ou Globo Repórter, né? Mas isso é Brasil! Daí, pensei: a migração dessas pessoas do Nordeste para esta região não nos parece com a dos africanos, haitianos e sírios para a Europa? É preferível morrer buscando uma vida melhor (mesmo que ilusória) a morrer de fome na seca?

Muitos garimpos estão em locais isolados acessíveis só de avião, mas de pequeno porte, os chamados teco teco. E são bem pequenos mesmo, ao longo da estrada vi vários. E a todo momento eles sobrevoavam Jacareacanga fazendo voos rasantes e não preciso mencionar que alguns já caíram em mata fechada, como neste caso aqui, embora não foi uma tragédia relacionada ao garimpo.

Garimpo no Pará – atividade nociva

A destruição ao ecossistema causada pela atividade garimpeira é clara. Vi ao longo da estrada vários igarapés tendo seu curso d’água desviado e muitas árvores destruídas, sem falar no uso do mercúrio que é um metal pesado tóxico que causa câncer e é despejado nos rios.

Escrever sobre garimpo é algo complicado, pois a realidade é dura e cruel. Há pessoas que se acostumaram com a atividade garimpeira. Há pessoas que nasceram no garimpo e não conhecem outra vida. Nem vou mencionar histórias ligadas a prostituição, drogas, brigas e morte, pois isto é um assunto ainda mais espinhoso e foge da proposta deste texto. No entanto, os relatos que ouvi me fizeram respeitar ainda mais este povo e ver que julgar a realidade dos outros baseada em nossa realidade não é justo. Acredito que é preciso um olhar mais sensível sobre a situação que leva pessoas a viverem de tal maneira.

SAÚDE

Mais incrível ainda é saber que as regiões de garimpo são focos de malária. Conheci uma senhora que trabalhou na cozinha de um ponto de apoio de um garimpo (uma espécie de balsa) dentro do rio, e adquiriu malária várias vezes. O marido dela também teve malária e de vários tipos. Boa parte da população que vive nesta região também já adquiriu malária mesmo que não trabalhe no garimpo. Assim, para quem visita a região, usar roupas longas é fundamental. Infelizmente não há vacina para malária e o tratamento é demorado, por isso, vi tanto sal amargo nas farmácias.

Na volta, de Itaituba para Santarém, veio um bêbê com suspeita de microcefalia que estava sendo transportado para algum hospital de Santarém. O soro que alimentava o bêbê foi pendurado no bagageiro superior da lancha. Mas, se fosse um caso pior e urgente? Bom, seria utilizado algum teco teco de dono de garimpo. Porém, cadê um avião ou ambulancha para o SAMU da Região? Pois é, esta é a realidade nua e crua: o Norte carece do básico e o povo se vira como pode lutando para sobreviver.

SEGURANÇA

Quando fiquei sabendo que ia pra Jacaré, fui buscar na internet informações sobre este lugar e uma das primeiras reportagens é um caso em que os índios tocam fogo na Delegacia da cidade. Mas vamos com calma. Embora a criminalidade cresceu de maneira alarmante, usei livremente o meu tablet, algo que jamais faço em Salvador. Há violência e até casos brutais, mas não são frequentes. Fiz toda minha viagem sozinha e em nenhum momento me senti insegura.

GARIMPO NO PARÁ – PRESERVAÇÃO MEIO AMBIENTE

Em 2017, presidente Michel Temer acabou por decreto com a Reserva Nacional de Cobre e seus Associados (Renca), uma área rica em ouro e outros minérios de 4,7 milhões de hectares na divisa entre o sul e o sudoeste do Amapá com o nordeste do Pará. Mas teve que voltar atrás por pressão de ambientalistas.

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Jacareacanga, sudoeste do Pará

Em 2020, se discute a transformação da MP 910 em lei, uma medida de grilagem de terra mascarada de regularização fundiária e que muito interessa a bancada ruralista e aumento de garimpo no Pará.

Outras leituras sobre a Região:

Lembrança de Um Velho Garimpeiro
Amazônia por um Sulista
Diário Cuiabá
Ambiente de Trabalho em Garimpo e Saúde

Daria pra fazer um livro né? A visão romântica em relação ao Norte é legal e está muito ligada a natureza, mas a realidade desta região só é conhecida por quem de fato se interessa por gente.

Texto publicado em Dezembro/2016.

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