Renda de bilro: identidade de resistência do artesanato

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Este texto traz uma reflexão sobre o saber-fazer artesanal da renda de bilro, herança secular europeia. A atividade encontra-se salvaguardada em mãos de mulheres negras, artesãs do município de Saubara (BA). A análise foi feita com base em pesquisas bibliográficas, a partir de termos como artesanato, identidade cultural e decolonialidade. Por fim, compreende -se que a produção artesanal representa um elemento de resistência para a comunidade local.

Renda de Bilro – Artesanato e Identidade Cultural

Ao tratar da representatividade do artesanato tradicional, Lemos (2007, p. 45) aponta que este “remete ao conjunto de artefatos mais expressivos da cultura de um determinado grupo, representativo de suas tradições e incorporados à vida cotidiana, sendo parte integrante e indissociável dos seus usos e costumes”. A produção artesanal se incorpora às relações familiares e comunitárias, de tal maneira que este saber é visto como de valor cultural a ser preservado e transmitido de geração em geração, para manutenção da memória coletiva (LEMOS, 2007, p. 45).

A identidade cultural da renda de bilro pode ser associada a uma das definições propostas por Castells: “[…] Identidade de resistência: criada por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ ou estigmatizadas pela lógica da dominação” (CASTELLS, 2018, p. 57). A partir destas contribuições, é possível caracterizar o artesanato produzido por comunidades tradicionais brasileiras como um bem-dotado de uma identidade de resistência frente aos desafios impostos pela globalização. Para sobreviver às intensas mudanças no cenário do consumo cultural, é necessário que as comunidades artesãs, como a de Saubara (BA), mantenham uma visão estratégica sobre estes processos de construção da identidade e estejam estruturadas e sólidas para enfrentar as ameaças a incidir sobre a identidade cultural do saber-fazer da renda de bilro.

Culturas Híbridas e Decolonialidade

Na obra Culturas Híbridas, Canclini (2001) faz uma abordagem conceitual sobre o processo de hibridação cultural, no qual o define como “processos socioculturais nos quais estruturas e práticas discretas, que existiam separadas, se combinam para gerar novas estruturas, objetos e práticas”. Culturas diferentes passam a conviver juntas e a formar uma multiculturalidade criativa, como resultados de processos intencionais ou ocasionais, mas sempre como fruto da criatividade individual ou coletiva. Este termo ganhou atenção no final do século XX, sendo comumente usado para descrever alguns processos, dentre eles, os interétnicos, decoloniais e globalizantes (CANCLINI, 2001, p. 15 e 16).

O que seria então a decolonialidade?

Walter Mignolo (2017) pontua de forma simples que “a decolonialidade significa primeiro desvincular-se dessa estrutura de conhecimento [criado pelos colonizadores] para se engajar em uma reconstituição epistêmica”. Ou seja, é preciso revisitar “os diversos modos de pensar, linguagens, modos de viver e estar no mundo que a retórica da modernidade desmentiu e a lógica da colonialidade implementada” (MIGNOLO, 2017).

Para Quijano (2005), “a colonialidade, em outras palavras, é o lado mais sombrio da modernidade ocidental” e acrescenta que “a decolonialidade é tanto um fazer analítico quanto um fazer prospectivo: construindo e reconstruindo os modos de vida que a modernidade repudiou e destruiu” (MIGNOLO, 2017). Oportunizar e criar espaços de expressões orais dos saberes tradicionais é promover a reconstituição epistêmica daqueles que herdaram a tradição, mas que não puderam, por algum tempo, evocar sua subjetividade durante o processo de produção. Hoje, representantes destas comunidades tradicionais podem criar diálogos com as diversas áreas do conhecimento sem perder a identidade cultural.

Renda de Bilro – Origem

Objeto de análise deste artigo, os registros mais antigos sobre a renda de bilro datam dos séculos XV e XVI, porém, sem um marco temporal específico. Fortes indícios apontam que a técnica pode ter surgido entre Portugal e Espanha, por volta dos séculos XII e XIII (OLIVEIRA, 2014, p. 5). Segundo Vera Felippi (2021), mencionou-se a técnica pela primeira vez nos livros de Matio Pagano (1515-1588). Outros registros foram observados na obra de Mrs. Burry Palisser, em 1869. Já em 1913, Clifford utiliza a renda de bilro como ilustração (FELIPPI, 2021, p. 28-30).

De acordo com Ramos (1948), quase não há relatos sobre a origem das rendas no Brasil, “pois a renda de bilros, entre nós, como, aliás toda e qualquer forma de artesanato, jamais mereceram a menor proteção ou orientação oficiais, sendo deixados aos azares da improvisação, significando abandono quase completo” (RAMOS, 1948, p. 35-36).

Renda de Bilro em Saubara

A renda de bilro é um objeto que pode ser estudado a partir de várias categorias de análises e contextos regionais, resultando em uma rica e vasta produção de conteúdo, visto que, no Brasil, observamos a existência de vários polos produtores da renda de bilro. Entre eles, está o município de Saubara (BA), localizado no Recôncavo Baiano, a cerca de 120 km da capital (Salvador), que possui pouco mais de 12 mil habitantes e surgiu no ano de 1550 (IBGE, 2022).

Ao segmentarmos a população por gênero, observa-se que os homens vivem da pesca; já as mulheres, trabalham na coleta de mariscos, complementando a renda familiar com a produção e comercialização do artesanato. Neste município, encontra-se a Associação dos Artesãos de Saubara (também conhecida como Casa das Rendeiras) que possui atualmente 110 associadas, das quais 55 estão em atividade, sendo 43 artesãs com atuação na produção da renda de bilro e outras 12 dedicadas ao artesanato de palha.

Fotos da Associação dos Artesãos de Saubara na Bahia

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Casa da Rendeiras
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publicações que abordam o tema da renda de bilro

Este texto analisa o saber-fazer artesanal da renda de bilro como uma herança europeia, que hoje encontra-se em mãos de mulheres negras do Recôncavo Baiano e que neste processo de hibridação cultural verifica-se uma possível afirmação da identidade de resistência do artesanato frente aos processos globalizantes.

Artigo escrito por: Vaneza Narciso, Viviane Narciso e Marcos Paulos Sales e publicado no Boletim do Observatório Cultural da Diversidade, Volume 96, n. 1.

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