INÍCIO Bahia Maragogipinho, maior centro cerâmico da América Latina

Maragogipinho, maior centro cerâmico da América Latina

Sabe aqueles lugares que você planeja ir e fica procurando
uma data ou um momento propício para visitar? Pois bem, quando fomos para
Camamu, não perdemos a oportunidade de conhecer o povoado de Maragogipinho. E deixo
uma sugestão: se estiver de carro, saia cedo de Salvador e passe em
Maragogipinho, o maior centro cerâmico da América Latina.


COMO CHEGAR
Depois de atravessar o ferry e a Ilha de Itaparica (BA-001),
chegaremos em Nazaré das Farinhas. Siga as placas que indicam Costa do Dendê (
Valença, Camamu, etc). Alguns quilômetros depois de Nazaré, veremos uma placa
indicando Maragogipinho e Aratuípe ( os nomes estão na mesma placa, mas são
direções opostas).

Quem julgar Maragogipinho pela entrada está frito…rsrs

Olarias

Como tínhamos uma vaga ideia de que Maragogipinho fica do
lado esquerdo e a placa indicava o lado direito, seguimos em frente, e
logicamente passamos da entrada. Voltamos um bom pedaço de estrada e obedecemos
a sinalização e perguntamos no posto de combustível que fica logo na entrada. A
estrada inicial é esburacada e com pouco asfalto, mas depois melhora…


Segue mapa:




HISTÓRIA
Maragogipinho é um distrito do município de Aratuípe e fica na região do Recôncavo Baiano. Antes, se fazia referência a Comarca de Nazaré das Farinhas que abarcava alguns locais como: a ilha de Itaparica, a vila de
Jaguaripe, as povoações de Aratuípe, da Estiva e Maragogipinho. Assim, Nazaré tinha grande relevância no comércio e escoamento dos produtos agrícolas e artesanais do Recôncavo, como menciona o professor em História, Wellington Castellucci Júnior citando 
Bert Barickman:
o porto de Nazaré já se constituía num importante atracadouro de embarcações vindas dos mais diferentes lugares do Brasil e do mundo, além de imponente centro comercial do Recôncavo.


Igreja Matriz Nossa senhora da Conceição

Este transporte era feito pelo Rio Jaguaripe que se encontra com o Rio Da Dona e desagua próximo de Cacha-Prego, localidade itaparicana.


Também chama atenção a descrição que Castellucci faz da região:
A imensa facilidade de encontrar argila, nos arredores de Maragogipinho e na ribeirinha do rio doce, um dos afluentes do Jaguaripe, também contribuía para o reboco das casas de taipa e para a confecção de vasilhas como as panelas e pratos de barro, utensílios muito usados na vida doméstica regional. Durante séculos, fora relativamente comum visualizar diariamente canoas e batelões, subindo e descendo aquele rio, carregados de argilas, galhos dos mangues e piaçava. “(CASTELLUCCI JR., 2008, p. 274)


casa de taipa





mãos que modelam, que constroem coisas belas

Estudos indicam que a cerâmica é uma arte indígena, mas não há como precisar a data do seu aparecimento na localidade de Maragogipinho. Apenas sabemos que é um ofício antigo e foi passado de pai pra filho ao longo das gerações e foi desempenhado também, por negros escravos e libertos. São mais ou menos 60 olarias que estão organizadas na Associação de Auxílio Mútuo dos Oleiros de Maragogipinho (AAMOM) que busca auxílio do governo para incentivo a produção artesanal.



fumaçou…

secando ao sol


Maragogipinho recebe a menção honrosa de “Maior centro cerâmico da América Latina”, em 2004, ao disputar o prêmio Unesco de Artesanato para América Latina no Caribe. E de fato, é uma coisa incrível ver os oleiros trabalhando! Com tranqüilidade e paciência vão moldando o barro e criando peças
lindas. Não são arrogantes nem rudes. São habilidosos e cordiais. É o exemplo
da tradição baiana que vem de baixo, da terra e das mãos de pessoas simples.
Literalmente! 





Gente simples como o senhor Almerentino, com mais de 80 anos e
toda vida dedicada ao trabalho da cerâmica. Aliás, ele trabalhou em outras
atividades. Serviu na Marinha. Mas não abandonou o ofício que seu pai lhe
ensinou. Isso ele nos contou com muito orgulho: conseguiu fazer um trabalho,
melhor que seu pai. E a partir daí, não parou mais. Hoje, ele não se envolve
tanto na olaria. Os filhos não deixam, rsrs. E foi passando um e ele apontando…
Com uma fala doce e suave foi nos contando como ele se desenvolveu no trabalho
com o barro. Perguntei se ele me permitia tirar uma foto com ele, e a honra me
foi concedida. Viva a Bahia!


Sro Almerentino

Não preciso dizer que comprar cerâmica aqui é muito mais
barato do que em qualquer outro lugar. Aqui você pode pechinchar. Aceita-se
encomendas. Fomos num sábado, mas um dos oleiros nos disse que domingo é o dia
de maior movimento. 

No mesmo local em que se produz ( torno manual)…


se vende e o cliente pechincha. Mas dificilmente se aceita cartão, vá com dinheiro em espécie.

Já ouviu falar na Feira de Caxixis? Esta é a maior Feira de Cerâmica da América Latina e ocorre durante a Semana Santa, mas infelizmente os
organizadores do evento não valorizam a cultura e o artesanato como deveria e a
ocasião se tornou uma festa com várias bandas de pagode, funk e axé. É
lamentável…

Curiosidade: Os caxixis, conforme esclarece Bittencourt (1951) citado por Leal (2006, p. 77), são
“miniaturas de louça grande, caprichosamente trabalhadas e originariamente destinadas a uma finalidade
lúdica, tudo pequeno, destinado ao enlevo e à alegria dos meninos”
.

Além da cerâmica, outro atrativo é o passeio de barco que custa entorno
de 30-40 por pessoa pelo Rio Jaguaripe com avistamento da fauna e flora local. Não
fizemos, mas achamos interessante a idéia para uma visita futura. Demos uma olhada no porto e
encontramos uma figura excêntrica. Um homem super gente boa. Meu pai ficou
batendo papo com ele acerca de pescarias e convidou ele para uma foto. Ele
fugiu, rsrs. Mas deixou que eu tirasse uma foto dele sozinho.

porto de Maragogipinho


Esse cara é uma figura. Gente boa.
Concentrado em sua pescaria…



Como era perto do meio dia, aproveitamos para almoçar no Restaurante Visão do Manguezal. Bem organizado, limpo e com preço justo. Não é caro.
Pedimos uma muqueca de camarão, bem servida para 3 pessoas. Eles aceitam cartão de crédito ou débito. Domingo lota!

sob a sombra de uma árvore e com vista pro mangue, oh vidão…

Ficamos com gosto de quero mais e planejamos voltar a
Maragogipinho. Valeu a pena!


Em tempo …
Faço parte de um belo grupo de fotografia no facebook o Saídas Fotográficas em Salvador, administrado pelo Juary Castro e Elisson Rios, que sempre realizam saídas fotográficas
para Maragogipinho. E o que essa galera produz durante as visitas é
simplesmente, espetacular. Dá uma olhada e sinta o espírito desta visita:
Foto: Juray Castro

detalhista e com esmeroFoto: Juray Castro

alguns jovens ainda se dedicam a seguir o exemplo dos pais e manter a tradiçãoFoto: Juray Castro
Foto de Aurea Santana

Forno utilizado para queima das peças. a temperatura pode chegar até 1300 graus centígrados
Foto: Juray Castro

Foto: Gustavo Melo

Foto: Gustavo Melo

Rio Jaguaripe
Foto: Josenilson Edington

Olhar de cerâmica
Foto: Josenilson Edington

Foto: Juray Castro

Foto: Mariana Melo

força, jeito e sabedoria
Foto : Mary Sena

Sro Almerentino fotografado por Juray Castro .
“A olaria é a sua corte… Neste espaço a sua palavra tem respeito!” por Juray Castro

Agradeço aos colegas que disponibilizaram as fotos para este
post.



Acompanhe o planejamento desta viagem pelo sul da Bahia, clicando aqui.


E você, conhece este lugar fantástico? Deixe sua sugestão ou dica. Gostaríamos de ler seu comentário:

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